O Globo | País: A CPI que virou sonho de consumo

A COMISSÃO QUE TODOS QUEREM

Disputa acirrada entre deputados para comandar investigação sobre seguro destinado a vítimas de acidentes de trânsito causa estranheza entre parlamentares que atuam na área. Setor envolve interesse de grandes empresas

Isabel Braga

O entra e sai de deputados e líderes partidários e do líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), na sala onde seria realizada a eleição para a presidência da CPI do DPVAT (seguro de danos pessoais causados por veículos automotores de vias terrestres), chamou a atenção de quem passava pelos corredores do Congresso. Indicado pelo presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), para comandar a CPI, o deputado Luís Tibet (PTdoBMG) perdeu para Marcos Vicente (PP-ES), candidato dos líderes do

Centrão e do líder do PP, Aguinaldo Ribeiro (PB). Foram 15 votos para Vicente e 13 para Tibet.

Antes do resultado, deputados que militam na área de prevenção de acidentes e de trânsito discursaram, questionando o grande interesse de colegas que não são da área para comandar a CPI. Parlamentares ponderam que o tema é de interesse de seguradoras que pagam o seguro a vítimas de acidentes de trânsito. Destacam que as CPIs têm poder de convocação e podem ser usadas como instrumento de pressão, tanto corretas quanto obscuras.

– Poucas vezes vimos tanta vontade de participar de debates sobre a área de trânsito. Espero que os objetivos sejam republicanos e as consequências dessa CPI sejam republicanas – afirmou o deputado Fernando Francischini (SDPR), que integrará a CPI.

– Nunca vi tanto interesse nessa área e espero que todos estejam preocupados em investigar as fraudes – acrescentou o deputado Hugo Leal (PSB-RJ), que atua para a aprovação de projetos de redução de acidentes de trânsito.

Marcos Vicente é da bancada da bola e ligado à CBF. Wellington Roberto (PP-PB), escolhido relator da CPI, também admitiu que não milita na área de trânsito. Segundo ele, o acordo da composição de comando da CPI foi feito na época da sua criação, quando Eduardo Cunha (PMDB-RJ) presidia a Câmara.

– É um tema polêmico, acidentes de trânsito, problemas com seguradoras, hospitais, escritórios corporativos de advocacia. O André Moura ia relatar,

mas como líder do governo abriu mão. Não sou da área, mas farei a relatoria com muita tranquilidade, de forma coletiva – disse Roberto.

O presidente eleito da CPI também admitiu que não é da área:

– Não represento interesses de ninguém, não sou ligado a bancos, a seguradoras. Sou ligado aos interesses do Brasil, bem republicanos. Sou ligado ao futebol, vê se estou na CPI da CBF? Lá acho que seria antiético. Vou presidir com bom senso e equilíbrio – disse Vicente.

Autora do pedido de CPI, Raquel Muniz (PSD-MG) será a primeira vice-presidente. Ela queria a presidência: – Realmente, me estranhou o interesse. Muitos que não quiseram assinar a CPI estão aqui hoje.

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